27.10.09

Eram dois meninos ou O bailarino e o menino

Eram dois meninos.
Um bailarino, dançava desde os dez anos, experiente, bonito, silhueta perfeita para o ballet clássico, postura e elegância de dar inveja à qualquer bailarina do Bolshoi...
O outro coitado, sempre quis aprender a dançar, mas nunca o deixavam: “Isso é coisa de meninas”, todos diziam... Além de impedido pela família, ele ainda era desengonçado, sem graça e um tanto gordinho. Mas ao ter idade suficiente para fazer escolhas, disse "Vou aprender a dançar”, se matriculou numa academia de dança e lá começou a fazer aula em uma sala de iniciantes onde só tinham meninas e todas bem mais novas, tolas e fúteis, mas engraçadas ao ponto de mesmo assim ele querer estar ali.
Era o pior da turma.
Por mais que se esforçasse, não conseguia fazer nem metade do que aquelas meninas conseguiam, todas já trabalhadas no ballet desde muito novinhas. Elas faziam piruetas, Arabesques, Pliés, Passé, Battement... E ele ali no seu canto tentando aprender tudo...
Na sala ao lado, aconteciam as aulas da turma avançada, e foi ali que pela primeira vez seus olhares se cruzaram... Para o menino, foi tudo muito rápido, aquele olhar simples, porém elegante e sincero, nunca vira olhos como aqueles antes...
Foi embora naquele dia sem conseguir tirar aquele olhar da cabeça... E sem entender o porquê. Sua próxima aula sería dali a dois dias... E estes demoraram meses para passar.
Finalmente chegara sua próxima aula. O menino se arrumou mais do que o necessário, e queria chegar mais cedo que o preciso... Mas acabou se atrasando com o trânsito, chegou correndo na aula e nem teve tempo de ver se o bailarino estava na sala ao lado. Durante sua aula, tudo estava correndo bem, até ele perceber um par de olhos lhe seguindo pela sala, tentou ignorar, imaginou ser de alguma outra aluna, mas por azar seu, naquele dia estava mais desastrado que o comum, acabou errando feio alguns passos, e ouviu risadas, ao olhar para saber de onde vinham, se deparou com aqueles olhos, os olhos sinceros, rindo dele.
Quis sumir.
Desaparecer.
Morrer...
Como pode aqueles olhos que tão presente estiveram em sua cabeça, estavam ali, rindo... Rindo dele... Mas como? Como? Mesmo estando nessa situação, não conseguia definir um sentimento de desapontamento com o bailarino... No fundo, bem no fundo, tinha até gostado, “Acho que agora ele sabe que eu existo”, pensou o menino.
Com muita vergonha, pegou suas coisas e saiu da sala... O bailarino parou de rir na hora... A professora pediu que voltasse... As colegas da sala, não entenderam, desatentas e perdidas em suas tolices nunca enxergam nada que não seja elas mesmas...
Mas o menino e o bailarino acabavam de traçar algo que nem eles mesmos poderiam explicar...
Desapontado o menino foi naquele dia para casa mais cedo, perdido em pensamentos, “Por que?” “O que está acontecendo?” Nunca tinha se sentido assim... Nunca tinha pensado assim... O bailarino agora era o foco de seus pensamentos, do amanhecer ao anoitecer... “O que houve?”, “Por que?”.
Uma semana se passou e o menino ainda não tinha voltado às suas tão queridas aulas... Decidiu deixar a vergonha de lado e voltou... Chegou cedo, e a primeira pessoa que viu ao entrar foi o Bailarino, suas faces enrubesceram, as orelhas estavam em chamas, baixou o rosto e passou direto à sua sala. O bailarino desta vez não se fez de invisível, o seguiu e ao entrarem na sala ele o pediu desculpas pelo que houve. Desculpas aceitas, faces rubras, o bailarino tornou a falar, mas a sua voz soava como uma melodia angelical, o menino nunca ouvira uma voz tão doce como aquela, e perdido em pensamentos, voltou ao som do bailarino lhe chamando. Perguntou seu nome.
Agora, devidamente apresentados, o bailarino explicou o que ocorrera, e com muito esforço o menino tentava se concentrar no significado daquela melodia, outrora chamada de palavras, e ao que parece, o bailarino não ria da falta de jeito dele, mas sim da postura desengonçada e ao mesmo tempo bela que o menino se esforçava em ter... Não era deboche, era atenção...
Naquele momento, não sei ao certo por quanto tempo, nem se é possível, mas se fosse todos teriam notado a velocidade que bateu o coração do menino, se possível ainda, todos teriam visto o suor escorrendo em suas mãos e o calor que sentia em sua face...
Aquela, talvez, tenha sido sua pior aula desde que se aventurara no mundo da dança, mas por outro lado, aquele dia talvez fosse lembrado para todo o sempre...
Ao final da aula, o bailarino lhe esperava no jardim da academia, e ambos sentaram para conversar em um banquinho que ficava ao canto, embaixo de uma roseira... E conversaram por horas, descobriram mais em comum do que seria possível em duas pessoas diferentes.
Conversaram...
Conversaram...
Conversaram...
O papo parecia não ter fim...
As horas voaram até o menino perceber que precisava ir, ambos levantaram-se juntos, esbarraram seus corpos e involuntariamente seus lábios suplicavam um beijo, um toque que fosse de suas faces para selar esta inesperada descoberta... Como se um fossem complementos, seus lábios juntaram-se em um beijo sutil e tímido, mas cheio de desejo. E um abraço era impossível de impedir, um abraço carinhoso e firme, que passava uma sensação de conforto e segurança...
E para o menino, se o mundo acabasse ali, durante aquele beijo, ele então poderia dizer que encontrou a felicidade, a felicidade nos braços do seu bailarino.
Glauver Souza

3 comentários:

Thayla Gomes disse...

Muito bonito, amigui! :) Deveria escrever mais!
=***

natalia disse...

Amigo palavras tão sutis e tão belas..
parabésn pela paixão tão linda e verdadeira que vc está vivendo!
te amo e fico feliz por você!

tony disse...

"Mas o menino e o bailarino acabavam de traçar algo que nem eles mesmos poderiam explicar..."

Sim, espressão de quem ama!
=p